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A palavra como fundamento para a existência humana
5 de janeiro de 2017 - 07:25, por Marcos Peris
RESUMO
Este trabalho surgiu, durante as aulas de Semântica (Língua Portuguesa V), de um desejo inquietante de analisar o sentido da palavra partindo de um princípio bíblico. Desse modo, o ponto de partida é um texto bíblico, mais precisamente um trecho de Gênesis (1.1-2, 26; 2.19), que narra a criação do mundo e como tudo foi criado. Como base teórica, o trabalho está apoiado nas obras de Fiorin (2003), Cançado (2012), Cherchia (2003) e Tamba (2006). Por meio deles, serão discutidos temas como o inatismo e a arbitrariedade do signo (CHOMSKY, 1957; SAUSSURE, 1916, apud FIORIN, 2003). O trabalho contempla aspectos linguísticos, concernentes à evolução da língua e seus impactos sociais, já que o homem está a todo o momento fazendo uso das palavras para poder se comunicar e desenvolver-se socialmente. Trata-se de uma abordagem bastante pertinente, visto que o processo evolutivo e cultural do ser humano traz uma discussão que vem sendo debatida desde a antiguidade: as palavras são naturais ou convencionais?
Palavras-chave: SEMÂNTICA – INATISMO – SIGNO
No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o espírito de Deus pairava por sobre as águas. Disse Deus: haja luz; e houve luz.
Também disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o NOME que o HOMEM desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles. (grifo nosso) (GN 1.1-2, 26; 2.19)
Esse é um texto bíblico que fala sobre a criação do mundo e tudo que existe nele, como foi criado e qual a sua finalidade. No início, a terra estava sem forma e vazia, não tinha formato e não existia nada para preenchê-la, inclusive o ser humano composto por homem e mulher ainda não existia. No entanto, Deus pelo poder da palavra começa criar as coisas e dá vida ao que ainda não existia, pois “a terra estava sem forma e vazia; havia trevas (escuridão) sobre a face do abismo (vasta extensão de águas do mundo em formação)”. Mas, “disse Deus”, ou seja, Ele usou a palavra para falar e ordenar que houvesse luz, “haja luz; e houve luz”. Nesse caso, a palavra luz tanto se refere ao seu sentido original, ato de iluminar algo ou a terra, como também nos remete à ideia de vida, iluminando a terra com a luz e dando vida, o contraste de morte que também pode ser representado semanticamente pelas palavras “sem forma e vazia”. Daí por diante, Deus dá continuidade na criação das coisas de forma linear e ao fazer a criação da espécie humana, Ele o faz segundo a sua imagem e semelhança, inclusive ordena que o homem domine no sentido de governar, administrar os peixes do mar, as aves dos céus, os animais domésticos e sobre toda terra, ou seja, tudo que existe e viesse a existir era submetido à administração humana. Isso é um principio que tem como objetivo a organização do mundo, da sociedade composta por pessoas de diversas culturas e com as palavras não é diferente, pois elas foram criadas para facilitar a vivência na terra, porém com povos distintos. Portanto, fomos criados semelhantes a Deus e inclusive, recebemos autoridade para nomear todos os seres viventes, por isso precisamos da palavra para dar sentido às coisas tanto quanto Ele precisou na fundação do mundo.
Com base nisso, pode-se dizer que o homem enquanto ser criado à imagem e semelhança de Deus, já nasceu programado para verbalizar e expressar seus sentimentos através da fala. O linguista Noam Chomsky (1965) ao criar a teoria da gramática gerativa que define como capacidade inata do indivíduo a característica de absorção e produção das estruturas constituintes das frases da sua língua, resume o papel da gramática não mais a um conjunto de regras, mas a uma aplicação da mesma em frases cotidianas.
A escrita e a linguagem é uma das artes mais belas que expressam naturalidade e emoção. Não há homem, nem povo que possa viver sem comunicação, pois faz uma conexão com toda a história e essência do ser humano em sua trajetória durante seu processo evolutivo da escrita, fala e expressão entre a linguagem.
Ainda discorrendo sobre a gramática gerativa de Noam Chosmky (1965), todo indivíduo nasce com uma gramática internalizada, pois segundo ele, se pegarmos uma criança que nasceu em determinada comunidade de fala e levarmos para outra totalmente diferente, ela consegue, em detrimento do meio, falar a mesma língua sem dificuldade. “A linguagem é um instrumento central para a existência humana tal como a conhecemos” (CHIERCHIA, 2003,p.22). É o instrumento pelo qual todos utilizam para viverem em sociedade, pois como se sabe, sem linguagem não há comunicação que também não há compreensão e posteriormente, não há como sobreviver, sobretudo porque todos nós fomos criados para viver em grupo, para aprender e interagir com o outro compartilhando e adquirindo novos conhecimentos.
O ser humano é o único “ser” dentre as espécies que foram criadas por Deus que já nasce com a capacidade inata para falar e expressar suas ideias, seus pensamentos. Ele é o único “animal” cientificamente falando, que consegue pensar discernir o bem do mau, o certo do errado e, consequentemente, fazer suas escolhas para o futuro.
Tendo em vista que a semântica é uma área do conhecimento que se detém no estudo do sentido das palavras (Lyons, 1978), é correto afirmar que toda palavra muda o seu significado de acordo com o contexto, seja ele no texto escrito ou falado dentro da comunidade. “No campo semântico, é opinião comum que as palavras são os nomes, variáveis segundo as línguas, dadas aos seres, coisas ou acontecimentos e que servem para identificá-los e diferenciá-los” (TAMBA, 2006, p71). Como vimos no texto em que Deus cria o homem e encarrega-o de nomear os animais, bem como tudo que passaria a existir dali por diante, assim continua sendo nos dias de hoje. Por exemplo, mesa só é mesa porque um dia, alguém se dispôs a criar algo que servisse talvez para colocar alguns objetos em cima e então, com o passar do tempo denominou-se esse objeto de madeira como “mesa”. Ou seja, a palavra mesa só tem sentido porque nós sabemos o seu significado, sabemos o que significa porque um dia a nomeamos como mesa pelo fato da sua existência imagética na nossa mente, porém, essa mesma palavra pode remeter a vários significados diferentes de acordo com o usuário e o contexto. Ex: mesa de jantar, mesa de bar, mesa de mármore. Observe que a cada ideia de mesa há também uma imagem diferente.
Segundo CANÇADO (2012, p.17) “A linguística assume que o falante de qualquer língua possui diferentes tipos de conhecimento em sua gramática: o vocabulário adquirido, como pronunciar as palavras, como construir as palavras, como construir as sentenças e como entender o significado das palavras e das sentenças”. Portanto, o falante mesmo tendo nascido com uma gramática internalizada e já possuindo um conhecimento linguístico que se dá naturalmente desde o seu crescimento com a família, é possível sofrer algumas alterações com o passar do tempo no convívio social e o indivíduo pode adquirir um novo vocabulário com novas construções frasais utilizando-se de palavras diferentes para dá sentido às coisas dentro do contexto o qual se encontra inserido.
Definir o conceito de palavra ou tentar entendê-la na sua essência é tão complexo como tentar entender ou estudar o ser humano. Mas ao tentarmos compreender a palavra, logo perceberemos que não há possibilidade de estudá-la isoladamente, pois ela só pode transmitir uma mensagem sobre algo, se conectada com outras, assim também acontece com todo ser humano. “Não há dúvidas de que para conhecer o significado de uma palavra é preciso enfronhar-se na história da comunidade linguística que a usa” (CHIERCHIA 2003, p. 44). Ou seja, para compreender o que se quer dizer com determinada palavra é necessário conhecer a língua ou o sistema linguístico pelo qual se utilizam em determinada comunidade para se comunicar. A palavra não muda por si só, e sim, o seu usuário que a faz mudar para dar outro significado à coisa de acordo com a cultura. Isso nos permite pensar acerca da complexidade que existe no ser humano, pois apesar de todos disporem das mesmas regras para se comunicar, a linguagem é o fator predominante que os diferencia e os faz ser quem são.
“Na sociedade atual, tanto a oralidade quanto a escrita são imprescindíveis. Trata-se, pois, de não confundir seus papeis e seus contextos de uso, e de não discriminar seus usuários” (MARCUSCHI, 2004 p.23). É sem dúvida muito importante atentar para as palavras tanto na oralidade, que podem ser observadas a partir da análise do discurso de qualquer pessoa, quanto na escrita que também é imprescindível, pois com tantos aparatos tecnológicos e entretenimentos criados para facilitar a vida do ser humano, estamos a todo momento sujeitos a interpretar a fala de alguém totalmente diferente do que a pessoa ou o texto quer nos comunicar. Por isso, é necessário muito cuidado ao analisarmos um texto ou até mesmo a fala de alguém, principalmente quando se trata de uma referência para a sociedade como no caso de um presidente, por exemplo, e trazendo para o contexto, um recorte de texto bíblico. Sobretudo, porque nesse processo os nossos pensamentos e nossas convicções devem ficar neutralizados para não interferir na verdadeira mensagem acerca do assunto. Pois como se sabe, todo texto fora do contexto é apenas um pretexto, ou seja, palavras retiradas do texto que recebem outro significado as quais têm o poder de mudar toda a verdade acerca de determinado assunto.
Sendo assim, “não é necessária muita argumentação para que se assegure que ensinar eficientemente a língua – e, portanto, a gramática – é, acima de tudo, propiciar e conduzir a reflexão sobre o funcionamento da linguagem, e de maneira, afinal, óbvia” (AZEREDO, 2000, p.52). Isto é, não há necessidade de muita explicação para entender que a gramática e, posteriormente, o ensino de língua vai muito além de normas e regras as quais são muito importantes para o processo de compreensão do texto, mas especificamente, toda didática do professor de Língua Portuguesa se pauta na ideia de conduzir as pessoas ou alunos a refletirem sobre os aspectos linguísticos, ou seja, sobre o funcionamento da linguagem no discurso ou no texto.
Portanto cabe ao professor de Língua Portuguesa como um dos responsáveis principais de proporcionar um novo olhar para o ensino de gramática, de modo que os alunos se sintam instigados a pesquisarem e buscarem mais conhecimento a respeito da língua, o dever senão a obrigação de ensinar a partir dessa concepção harmoniosa que somente a linguagem tem o poder de fazer acontecer.
REFERÊNCIAS:
ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia do obreiro. Traduzida em portugês: Revista e Atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri – SP: Sociedade B´[iblica do Brasil, 2007.
CANÇADO, M. Manual de semântica. São Paulo: Contexto, 2012.
CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Tradução Luiz Arthur Pagani, Ligia Negri, Rodolfo Ilari. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
TAMBA, Irene. A semântica; tradução Marcos Marcionilio. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2004.
AZEREDO, José Carlos (organizador). Língua Portuguesa em debate: conhecimento e ensino. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
Ficha
Por: Edno dos Santos Pinto, formando em Letras – licenciatura pela Uniages, Centro Universitário, localizado em Paripiranga/Ba
Graduado no Centro de Treinamento Bíblico Rhema Brasil Unidade Lagarto.
Monitor Social exercendo função na Sedest – Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social e do Trabalho/Programa Bolsa Família.
Orientadora: Prof.ª Msc. Ivanete Freitas Cerqueira

















